{"id":168,"date":"2012-10-31T00:21:13","date_gmt":"2012-10-31T02:21:13","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.os-teixeiras.com\/?p=168"},"modified":"2015-10-23T12:07:46","modified_gmt":"2015-10-23T14:07:46","slug":"valzinho-no-jornal-do-brasil","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blog.os-teixeiras.com\/?p=168","title":{"rendered":"Valzinho: No Jornal do Brasil"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/blog.os-teixeiras.com\/wp-content\/uploads\/2012\/10\/20121031-010800.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"size-full alignleft\" src=\"http:\/\/blog.os-teixeiras.com\/wp-content\/uploads\/2012\/10\/20121031-010800.jpg\" alt=\"20121031-010800.jpg\" width=\"169\" height=\"448\" \/><\/a><\/p>\n<p>\u201cVagabundo eu sou, ave sem ninho, pela vida eu vou, canto sozinho&#8230;\u201d Foi sempre solit\u00e1rio, triste e discreto o canto de Valzinho Teixeira, compositor, letrista, violonista, permanente inovador e \u00faltima das grandes perdas sofridas pela m\u00fasica popular brasileira.<br \/>\nDiscretamente ele viveu: 65 anos de exist\u00eancia e 47 de carreira. Era daquele tipo de m\u00fasico n\u00e3o muito conhecido do p\u00fablico, mas entusiasticamente respeitado, admirado e at\u00e9 imitado pelos outros m\u00fasicos. Parecia fugir da fama, arredio, t\u00edmido, modesto ao exagero. Mas os que lhe conheciam a obra procuravam-no sempre, sem esconder um encantamento igual ao que levou Tom Jobim a concluir, depois de cantar Doce Veneno ao piano, que suas harmonias eram repletas de surpresas e sutilezas.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Discretamente ele morreu, sexta-feira passada, quando toda a cidade parecia preocupada com a chuva, amea\u00e7a maior \u00e0 apresenta\u00e7\u00e3o de Frank Sinatra no Maracan\u00e3 (*). Valzinho foi sepultado num dia de Sol.<br \/>\nSua biografia, como n\u00e3o podia deixar de ser, \u00e9 cercada de alguns mist\u00e9rios. Pouco se escreveu a seu respeito, raras entrevistas ele concedeu. Herm\u00ednio Bello de Carvalho \u2013 que dedicou ao homem e \u00e0 obra grande parte do encarte do disco Valzinho: um Doce Veneno, lan\u00e7ado no ano passado \u2013 fala de um personagem misterioso, grande bo\u00eamio, homem de amores violent\u00edssimos (\u201c&#8230; inclusive com dois mitos da R\u00e1dio Nacional&#8230;\u201d), introvertido, m\u00e3o-aberta, alma pura e sofrida.<br \/>\nNasceu no Iraj\u00e1, a 26 de dezembro de 1914. Seu nome completo: Norival Carlos Teixeira. Por muitos anos a fam\u00edlia viveu o clima musical de Vila Isabel, o irm\u00e3o Newton Teixeira compondo obras-primas como A Deusa da Minha Rua, a irm\u00e3 Y\u00eadda sendo a grande estrela dos velhos show do Instituto de Educa\u00e7\u00e3o. Valzinho descobriu o viol\u00e3o cedo. Depois do primeiro emprego (auxiliar de alfaiate, para ajudar a fam\u00edlia), vamos encontr\u00e1-lo, aos 18 anos, integrando alguns regionais da \u00e9poca.<\/p>\n<p>At\u00e9 1933, tocou com o conjunto de Pereira Filho, ao lado do viol\u00e3o de Lu\u00eds Bittencourt, da flauta de Dante Santoro e do pandeiro de Darcy. Pereira Filho, tamb\u00e9m violonista, era l\u00edder e arranjador. A partir de 1934, intensa atividade: shows em r\u00e1dios, teatros e circos, apresenta\u00e7\u00f5es ao lado de Pixinguinha, Luperce Miranda e Carlos Lentini.<\/p>\n<p>J\u00e1 por volta de 1936, os primeiros ensaios como compositor. Nada parecido com o que fazia na \u00e9poca. Pelo contr\u00e1rio, era um pesquisador de harmonias \u2013 assim como Cust\u00f3dio Mesquita e Vadico \u2013 e, nisso, um lan\u00e7ador do que bem pode ser considerado o germe da bossa nova. Com a palavra, Radam\u00e9s Gnatali, cujo conjunto acompanha Zez\u00e9 Gonzaga no disco Valzinho: um Doce Veneno:<\/p>\n<p>&#8211; \u201cEra um bom m\u00fasico, bom rapaz, bom amigo, Mas o introvertido compositor nunca foi devidamente conhecido. Escrevia coisas muito modernas para a \u00e9poca. Talvez por isto o povo n\u00e3o compreendesse a sua m\u00fasica. Foi um precursor da bossa nova\u201d &#8211; e tinha como p\u00fablico outros m\u00fasicos.<\/p>\n<p>A primeira das composi\u00e7\u00f5es de Valzinho a chamar a aten\u00e7\u00e3o de seus colegas de profiss\u00e3o foi, certamente Tudo foi Surpresa: \u201cEra a minha vida um lindo c\u00e9u azul, mas, depois que o nosso amor morreu, rolam grossas nuvens de saudade&#8230;\u201d. A letra, de Peterpan, pouco tinha de novo, enquadrando-se no estilo um tanto rebuscado da \u00e9poca. Mas a linha mel\u00f3dica j\u00e1 revelavam a presen\u00e7a de um m\u00fasico preocupado com novas formas.<\/p>\n<p>O r\u00e1dio foi seu principal campo de a\u00e7\u00e3o. Trabalhou na Mayrink Veiga, apresentando-se todos os domingos no Programa Cas\u00e9. Onde a grande estrela era o compositor letrista e cantor e at\u00e9 contra-regra Noel Rosa. Noel morreu em 1937, Valzinho seguiu em frente. Em 1940, a R\u00e1dio Nacional, em cujo cast figuravam os maiores nomes da m\u00fasica popular. Doce Veneno \u00e9 desta \u00e9poca. N\u00e3o apenas Radam\u00e9s, mas todos os m\u00fasicos da emissora apreciavam, com sicero entusiasmo, as melodias de Valzinho. Dante Santoro, em cujo regional tocava, maestros como L\u00edrio Panicalli, Leo Perachi e Chiquinho. As composi\u00e7\u00f5es se sucederam: Tr\u00eas de Setembro, \u00d3culos Escuros (com versos t\u00edpicos de Orestes Barbosa, dizendo:\u201dMas eu vi pelo vidro enfuma\u00e7ado, do outro lado, um cristal de uma l\u00e1grima rolar&#8230;\u201d), Imagens (Orestes, de novo, comparando um beijo a um f\u00f3sforo aceso), Amar e Sofrer (em que Valzinho se revela um \u00f3timo poeta), Tormento, Castigo, Teu Olhar,Quando o Amor Vai Embora, Fantasia, Tempo de Crian\u00e7a, Viver Sem Ningu\u00e9m e uma, supreendentemente moderna, N\u00e3o Conv\u00e9m.<\/p>\n<p>Todas estas composi\u00e7\u00f5es, por longo tempo esquecidas, s\u00f3 voltaram a ficar ao alcance do p\u00fablico no disco gravado por Zez\u00e9 Gonzaga e o Quinteto Radam\u00e9s Gnatali. Foram, portanto, quase trinta anos entre a data de composi\u00e7\u00e3o e a data da primeira grava\u00e7\u00e3o (**).<br \/>\nHomem sens\u00edvel, Valzinho recebeu como rude golpe a morte do pai, em 1950. Come\u00e7ou ent\u00e3o a aparecer ainda menos. Em 1973, quando a m\u00e3e morreu, guardou o viol\u00e3o \u201cpara sempre\u201d. Um sempre que durou apenas seis anos, quando concordou em entrar no est\u00fadio para gravar, com sua voz rouca e triste, a obra-prima que \u00e9 Viver Sem Ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>Compositores da outra gera\u00e7\u00e3o saudaram seu retorno. Um deles, \u00c9lton Mederos:<br \/>\n-\u201dTrata-se de um melodista de primeiro time. Injusti\u00e7ado, por\u00e9m, j\u00e1 que tanto ele como Garoto, ambos violonistas, foram os inovadores da m\u00fasica popular brasileira, bem antes da bossa nova.\u201d.<\/p>\n<p>Outro, Hem\u00ednio Bello de Carvalho:<br \/>\n-\u201dCompositor maldito? Talvez ele, mais que nenhum outro, mere\u00e7a esta rotula\u00e7\u00e3o. Que mist\u00e9rio foi este que tornou obscura a sua biografia e oculta a sua sombra. O que determinou o afastamento de Valzinho da composi\u00e7\u00e3o? Um pouco de desambi\u00e7\u00e3o, talvez a bo\u00eamia e as muitas desilus\u00f5es de amor&#8230; Mas Valzinho \u00e9 um destes artistas raros&#8230; Sua obra n\u00e3o conseguiu submergir \u00e0 solid\u00e3o que ele imp\u00f4s a como roteiro de seus dias.\u201d<\/p>\n<p>O solit\u00e1rio, triste e discreto Valzinho, que em um de seus versos diz, do amor e da vida: \u201cTudo acaba&#8230; \u00e9 a lei da natureza\u201d.<\/p>\n<p>(<strong>Jo\u00e3o M\u00e1ximo &#8211; Jornal do Brasil, contra-capa do Caderno B, p\u00e1gina 10, Rio de Janeiro, ter\u00e7a-feira, 29 de janeiro de 1980<\/strong>)<\/p>\n<p>Notas minhas:<\/p>\n<p>(*) Que aconteceu no dia 26 de janeiro de 1980, um dia depois da morte de Valzinho, que sempre fora seu f\u00e3.<br \/>\n(**) Aqui h\u00e1 uma imprecis\u00e3o do jornalista j\u00e1 que algumas destas composi\u00e7\u00f5es foram gravadas desde que foram criadas, portanto dentro dos trinta anos citados, por Elizeth Cardoso, Paulinho da Viola, Jamel\u00e3o, Jards Macal\u00e9 e Maria Creusa.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cVagabundo eu sou, ave sem ninho, pela vida eu vou, canto sozinho&#8230;\u201d Foi sempre solit\u00e1rio, triste e discreto o canto de Valzinho Teixeira, compositor, letrista, violonista, permanente inovador e \u00faltima das grandes perdas sofridas pela m\u00fasica popular brasileira. 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